Nine Inch Nails versus Bauhaus – Hurt (Originally by Nine Inch Nails).

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HEAVEN BESIDE YOU

abril 30, 2010

Like the coldest winter chill

Heaven beside you… Hell within

Like the coldest winter will

Heaven beside you… Hell within

And you wish you had it still, heaven inside you!

G. não acordou em vão

abril 29, 2010

(Stanton MacDonald)

A porta se fecha sozinha.
Começa, de novo, pausa. Continua: lá vamos nós…
…Limpe os olhos (primeiro), eles estão cobertos de betume viscoso assim como mergulhões que se engasgam de escuridão, debatendo-se em vão no petróleo derramado.
Espera, o segundo já vem.
Os filhos do céu e do mar cobertos de óleo.
Eu sou um  filho póstumo do estrago, de uma lentidão pesada. Meu cobertor está repleto de carrapados, alfinetes e sujeira.
A minha casa foi roubada, a minha honra foi violentada pelo melhor amigo.
Irmão.
” – Eu não tenho nada meu.”
Meu amor foi embalsamado numa espera sem fim: assim eu redigi minha carta suicida ao pai da criação.
(continua sem enredo)
Confio nos teus olhos, mas não nos teus gestos: tuas mãos estão distantes dos teus olhos.
Espero algum som luxurioso que me desperte a atenção,que desperte a hibernação desse corpo frio. Tudo está cinza chumbo, roxo, vermelho escuro venoso.
Poço de piche podre. Passo as mãos em meus cabelos negros… Pensando… Tentaram sufocar-me enquanto eu dormia e, por isso,  eu não me lembro mais o que havia sonhado. Mas o despertar não me pareceu ser em vão.
Parágrafos
empilhados
sobre
parágrafos!
Bem vindo inferno astral! Bem vinda, destruição! Bem vindo vizinho criminoso! Bem vinda, loucura! bem vinda, doença silenciosa! Bem vinda, amante enferma!
Bem vindos à minha cama desfeita que exala o cheiro de remédio do meu suor.

G. não acordou em vão.

abril 29, 2010

Memórias das oliveiras

abril 23, 2010

Um par flamejante de olhos procurando por um novo começo

que não volta nunca mais no tempo

tudo deve caminhar adiante, com o peito aberto por uma bala

fumegante

O corpo entrelaçado na bagunça dos lençóis amarrotados e cheirosos

dorme submerso em sonhos brancos

A temperatura é branda como a de brasas sob o manto terrestre

e nossos fantasmas flutuam calmos sob a superfície da água amniótica

No silêncio reconfortante da manhã paredes traspiram o cheiro humano das expectativas

aqui, teu corpo morno é uma vertigem viciante de hálito profundo

No fundo da garganta

o grito que se liberta de suas amarras vocálicas e atravessa dos teus lábios para os meus

assustadoramente cálido

tintas se misturam na superfície de uma tela gelatinosa,

mãos úmidas tocam meu rosto, fecham os meus olhos, molham meus cabelos

com sua febre intermitente

Delicadas pontas de dedos tateiam a escuridão alheia

em busca de si mesmo.

Trincheiras

abril 12, 2010

Onde estão as expressões dos olhos das janelas?

Acendendo na noite com alguns vultos dentro

me deixam nervosa, eu não aprendi a minha lição

não há como desfazer, tudo corre em círculos nessa ventura nauseante.

Traz a tua luz,  implodindo dentro da minha pele

quero me consumir em fogo

queimar a película delicada dos sonhos tristes

pilhas de rolos de velhos filmes tristes;

Tangerine, tangerine…

Meu reflexo precisa se projetar em ti

quero a fôrma angelical de tua pessoa

pessoa feita de tecidos suaves, de saliva doce,

de sentenças verdade; teu verbo preciso no preciso momento

de arrancar dentre as trincheiras

este soldado enlouquecido pela guerra.



Ai, que saudade daquele tempo em que a gente morria de amor e não de atropelamento… Ai, que saudade do contento de um bolo fumegante de fubá, simplório e realista, que agradava qualquer paladar! Aquilo sim, calava os subúrbios escuros da mente da criança chorosa que acabara de tomar um sopapo estúpido do velho que fedia a álcool e a suor.
Tomávamos muito café desde pequenos, aquele cheiro vinha com o brinde de um beijo de avó, que parece pedir perdão ao neto pelo pecado de seu filho triste e bruto.
Os cães cegos da rua Álvares de Azevedo cheiravam o chão à procura de restos de lixo com os ouvidos atentos aos automóveis velhos que por vezes passavam rente às suas silhuetas magras. Os vizinhos escaldavam os gatos, belas criaturas que passeavam nos telhados, que morriam nus, sem pêlo, com as retinas opacas e as bocas abertas como que em sede.
Odiava quando minha mãe metia a tesoura no meu cabelo, logo um cabelo tão delicado, castanho e fino que escorria na face, caía pelo chão, podada, a única e suave determinante da identidade feminina da criança. Talvez por isso eu gostasse tanto daquele vestidinho vermelho (e único) e da sapatilhas gastas de correr.
Nada era melhor que estojo novo de canetinhas coloridas e o cheiro do papel recém saído do Xerox para a mesa da sala de aula. Quem tinha fome, não reclamava da canjica da Dona Tereza, cozinheira da cantina, mãe de muitas bocas, e de outras suas, noturnas, que mal alimentava em sua casa. Minha mãe era professora, e eu era igual a todas as crianças.
Cachorro, galinha, marreco, vaca e cavalo. Férias nos cafundós do pobre Judas, móveis coloniais com couro gasto, à noite telas de mosquiteiros e som de radinho à pilha, eu escovava os dentes com a escova da minha prima que sabia tudo sobre os bichos e as proezas da natureza com seus olhos profundos acostumados ao silêncio bucólico.
Presente muito caro de tia era a medalhinha finíssima de Nossa Senhora folheada a ouro. Os três reis magos entrando com violas adornadas com fitas coloridas e flores na casa da avó materna religiosa, prendas, orações e comida farta, ninguém conseguiu explicar até hoje aquele cheiro forte de rosas quando a imagem da Nossa Senhora da rosa Mística foi levada ao centro da sala da matriarca, viúva quando ainda nova, com a prole de onze filhos. Dizia ser a sua santa protetora.
Retalhos macios unidos num cozer perfeito de coloridos geométricos, colcha que dava sono pelo seu cheiro de limpeza, já tantas vezes lavada, e pelo cheiro familiar próprio das coisas que se compartilham numa casa de família grande. Todos os meus primos eram meus irmão, e eram tantos os filhos, que todos os adultos eram pais e mães de todos nós e, como apanhava-se menos dos pais dos outros do que dos nossos, aprontávamos em dobro.
(continua…)