REVÓLVER

outubro 6, 2010

As mudanças de mau hábito poderiam vir a calhar
nesse mau gosto em tecer nos seus dias rotos
um interminável tédio paralizante
Cada qual que se descostrua em seu espaço
jogando fora os trapos, velhos quebra-cabeça com peças faltando
que ocupam a mémória íntima das gavetas do quarto.
Tanto por tão pouco, agora vivo atenta, um tanto aflita
punções se abrem com a pressão do reverbero das mais fortes batidas
que se descompassam no pulso orgânico do pânico
E quem quer ter mais surpresas?
em mundo onde as retinas logo aprendem a se contrair rapidamente:
ora o brilho ofuscante da alegria, logo a a escuridão silenciada
só há de se querer sossego, numa varanda calma como uma arma
de calibre pesado a tira-colo, despretensiosamente…
Eu me distraio ouvindo Beatles, Eleanor Rigby, deixo o telefone tocar
tomo meu ansíolíco e estou pronta para entrar na multidão
e em meio a milhões talvez achar algum amigo, velho conhecido
um irmão que irá sorrir ao reconhecer a minha imagem.
Um brinde a qualquer motivo, conversas até a chegada
do frio calmo da madrugada, recuperar o fio da meada
e brindar sem motivo, comemorar por estar vivo, não pensar no dia seguinte
deixa-o chegar de mansinho, não há mais o que temer.
Eu, minha arma, meu vinho e meu amigo
logo esqueço de ter nascido pássaro criado por víboras
de ter que sobreviver num mundo à mercê de cretinos
que ignoram o valor das idéias e da criatividade, e que se pensam fortes em sua
vulnerável, frágil “invencibilidade”.
Enquanto alguns ainda estarão à procura daquelas peças perdidas
eu estarei arrancando as tábuas do piso da minha casa com as unhas
e pintando as paredes com a língua macia de pincéis carregados da saliva fresca
de viscosa tinta nova.
Meu vizinho nunca reclamou do barulho…Revolver!
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