Silente

fevereiro 7, 2011

 

Ophelia - Pintura de John William Waterhouse

Ophelia - Pintura de John William Waterhouse

 

Luzes oscilantes nos olhos silentes

Diz tal qual cor ou efeito lhe atende

pelo nome, esta tua natureza crisálida.

O eco dos passos no tempo da música

O sal delicado da pele derretendo em minha língua

De minha boca o expiro profundo e quente

Que outrora fora palavra poesia poente

 

Passo a dormir entre as raízes profundas

Cravadas no silêncio fresco da terra vermelha

São como ladras mãos serenas

em busca de água no ventre do solo

 

Pequenos vermes vão à tona tornando-se borboletas

E procuram o hálito doce das flores  mais efêmeras

Onde mergulham suas pequenas papilas

 

No colo das quimeras um limbo morno

Arranco o cordão umbilical que se torcia em meu pescoço

E vivo de braços dados com o acaso em busca de meus sinônimos.

 

REVÓLVER

outubro 6, 2010

As mudanças de mau hábito poderiam vir a calhar
nesse mau gosto em tecer nos seus dias rotos
um interminável tédio paralizante
Cada qual que se descostrua em seu espaço
jogando fora os trapos, velhos quebra-cabeça com peças faltando
que ocupam a mémória íntima das gavetas do quarto.
Tanto por tão pouco, agora vivo atenta, um tanto aflita
punções se abrem com a pressão do reverbero das mais fortes batidas
que se descompassam no pulso orgânico do pânico
E quem quer ter mais surpresas?
em mundo onde as retinas logo aprendem a se contrair rapidamente:
ora o brilho ofuscante da alegria, logo a a escuridão silenciada
só há de se querer sossego, numa varanda calma como uma arma
de calibre pesado a tira-colo, despretensiosamente…
Eu me distraio ouvindo Beatles, Eleanor Rigby, deixo o telefone tocar
tomo meu ansíolíco e estou pronta para entrar na multidão
e em meio a milhões talvez achar algum amigo, velho conhecido
um irmão que irá sorrir ao reconhecer a minha imagem.
Um brinde a qualquer motivo, conversas até a chegada
do frio calmo da madrugada, recuperar o fio da meada
e brindar sem motivo, comemorar por estar vivo, não pensar no dia seguinte
deixa-o chegar de mansinho, não há mais o que temer.
Eu, minha arma, meu vinho e meu amigo
logo esqueço de ter nascido pássaro criado por víboras
de ter que sobreviver num mundo à mercê de cretinos
que ignoram o valor das idéias e da criatividade, e que se pensam fortes em sua
vulnerável, frágil “invencibilidade”.
Enquanto alguns ainda estarão à procura daquelas peças perdidas
eu estarei arrancando as tábuas do piso da minha casa com as unhas
e pintando as paredes com a língua macia de pincéis carregados da saliva fresca
de viscosa tinta nova.
Meu vizinho nunca reclamou do barulho…Revolver!

Agosto

agosto 17, 2010

Preparai-vos irmãos queridos:
Matei as sentinelas, destronquei suas colunas imponentes
espalhei o veneno de minha loucura, pintei a jorros as paredes de vermelho
embaixo das unhas escuros resquícios da carne destroçada
denunciam a mão assassina
Hematomas borrados apagam a estampa brilhante das estrelas
são os sonhos traídos por mim ao crer naquilo que me encantava os olhos
sonhos que coagulam mortos no firmamento em desesperança.
Minha pele, minhas carcaças
meu curtume e meu coração rangendo ao fio da faca
todo dia, toda noite, toda vida
sob o frio fito dos abutres, esperando a hora de minha morte.
Quando enfim sucumbirei? Quando virá minha redenção?
Alma purgada na poça rasa, nada mais remete e não reflete nada
espelhos baços estes olhos doentes, cegos, vazados
assustam até a mais grosseira matilha e desorientam o canto dos pássaros.
Eu comecei a morrer quando ainda aprendia a escrever minhas primeiras frases.

Em passos vagarosos na bruma azul escura teu corpo pálido se movimenta
pesadamente.
Uma caixa de correio vazia, janelas empoeiradas que se abrem ao sol
mas sem o velho sorriso das memórias desgastadas na espera.
É hora de um novo começo, de outro sorriso aberto.
Mãos desentrevando-se nos dentes do piano de cauda
fazem o som ecoar pela garganta dos corredores da casa.
As tuas íris azuis eclipsadas pelas pupilas negras dilatadas
mais parecem uma fina moldura de suas retinas claras
a tua alma delicada ainda por acordar.
Meu mergulho é profundo no seu nada, no seu tudo, em seu todo.
Entre as paredes do seu novo quarto, a eletricidade do meu cérebro
se vulgariza em lampejos tantos, diga
quantos mais eu aguentaria?
Espelhos imaginários refletem-se infinitamente
um posto em frente ao outro, imagens gêmeas invertidas.
Eu me reverto. Eu te trafego no romanceio da realidade abrupta.
Onde está o caminho? Amor, ele só existe enquanto está sendo feito.
O teu peito forte se sufoca em sua própria musculatura tensa
e tua respiração e palavras se engasgam.
É preciso deixar que o céu entre pela sua boca
e que o inferno saia quente por suas narinas.
Deixe que eu te leve, glorificados por cicatrizes da guerra que acabou
despido de teus segredos, agora eu te vejo.
vejo-nos frebris e cansados,
O consolo vem do teu corpo belo e convulso
exorcizamo-nos um no outro, os sinais vitais fervem novamente
arrebentando as artéria adormecidas.
Vê, o amor mais que merecido erguendo-se gigantesco
debaixo de uma tonelada de poeira.
É com o meu peso que eu te ergo, nada te sobrecarrego
e é com o meu gosto que eu te acordo, desfibrilando teu epicentro
Não temas as sombras que me acompanham
são somente meus sonhos e meus pesadelos,
são filhos de outra beleza
que não agradam a maioria dos olhos que os miram,
são lições aprendidas nas noites e nos dias
que vieram espantar seu inferno pra fora de tua mente.
Essa singular natureza, além do bem e do mal,
além da mentira do óbvio bonito e bem retinto, passado a frio
acorda-nos, acordes ,
acordemo-nos.

Cala a boca, Narciso

maio 26, 2010

Este meu narciso masoquista esboça sua psicose
cuspindo tinta negra nos muros da cidade
é a carne que se come crua a dois ou a três, quem sabe.
Sua energia libidinal é seu delírio de grandeza
não percebes que teu vinho está estragado?
Colocas o amor em postas sobre lençóis usados,
mas você é quem está desfeito em pedaços.
Faz dias que não dormes, faz dias que não vives,
vitimado, você está correndo da dor
corra rápido para casa.
Flor apática e patética, teu mal gosto chega a ser uma arte,
teu cheiro dissipou-se, tua fera regurgitou a caça
e as hienas sorridentes tomaram conta de teu quintal, à espreita…
Falso inquisidor proxeneta e suas bruxas putas, lambidas
pela labareda das fogueiras de suas decadentes núpcias.
Gira a manivela do tempo e olha-se no espelho: ainda és jovem
suspira e te ata a gravata à garganta, sufoca o sorriso imbecilizado
sem a tônica máxima da palavra de Homem.
Perdido e sem paixão, meu caro Narciso,
engula essas lágrimas tolas, receba um beijo de boa noite
e cale-se diante a minha presença.
Abra seus braços e me faça cair novamente dentro  mim
o arco do seu abraço guarda uma paisagem imensa
em uma envergadura ampla que abriga uma passagem onírica
de um pólo a outro da consciência do meu amor.
O tempo nos acertará os relógios psíquicos numa sincronia
seguinte ao abismo de milhões de dias, em intervalos de luz na escuridão.
Eu  tento fazer com que você se sinta em casa, dentro do meu peito,
pra te deitar no sossego onde só se ouve a respiração.
Passam-se nuvens lacrimosas repletas de cinzas suaves eletrificadas
e é tão belo teus olhos azuis mudando de cor nesses tempos de estações caóticas…
Teu corpo transpira como um grande jardim denso, perfumes de todas as cores
e temperaturas embriagantes exalam-se dessa tua entidade magestosa
como um eco profundo em minha alma…
A febre das dores de tudo aquilo que sepultaste em ti cessará com a chuva,
uma trégua para teu cansaço, lavando o crivo das lápides frias
o fim do luto de anos seguidos.
Jogue fora estes soníferos, estaremos a salvo depois de sãos
Acordemos, amor, espanta a sombra súbita do medo,
essa abstração perigosa da realidade em distorção
As partenogêneses da solidão no imaginário atropelam a compreensão
mas o  pesadelo é só um pesadelo, nítido, só o agora
aqui, entre nós, bem diante nossos olhos, a nossa continuação.

O Pastor

maio 12, 2010

Eu sou um remédio amargo para seu paladar infantil e esteta
Eu sou um pai ausente e viciado que não bate na porta do seu quarto
antes de entrar
Sou um pastor de nuvens negras baças num céu de um domingo claro,
o choque de um atropelamento, o pânico de um alarme de incêndio.
Sou o incendiário cheirando a gasolina, o motivo tenso de um riso nervoso.
Eu sou suas odiadas muletas que entortam sua anatomia frágil, anti-anatômicas
o pudor em público, a frustração do seu sexo tenso, o cobrador na porta da frente?
Então é isso que sou para seus olhos doentes?
Os meus sentimentos mais profundos não mais se mostrarão
tudo ficará submerso dentro de uma parte esquecida de mim.
Grite, e eu não lhe escutarei.
Tudo vai perdendo o gosto na superfície áspera da língua cega
agora, só memória de vapores de cheiros etéreos no caminho.
Não há perdão, as linhas se entrecruzaram na escuridão particular
eu sigo em frente… Adiante, só o fim de tudo.