junho 6, 2010

“Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo.”

Carlos Drummond de Andrade

junho 6, 2010

“A forma de governo mais adequada ao artista é a ausência de governo. Autoridade sobre ele e a sua arte é algo de ridículo.”

Oscar Wilde


Entendeste?

junho 6, 2010

Não tem porquea interpretar um poema. O poema já é uma interpretação.   (Mário Quintana)

Abra seus braços e me faça cair novamente dentro  mim
o arco do seu abraço guarda uma paisagem imensa
em uma envergadura ampla que abriga uma passagem onírica
de um pólo a outro da consciência do meu amor.
O tempo nos acertará os relógios psíquicos numa sincronia
seguinte ao abismo de milhões de dias, em intervalos de luz na escuridão.
Eu  tento fazer com que você se sinta em casa, dentro do meu peito,
pra te deitar no sossego onde só se ouve a respiração.
Passam-se nuvens lacrimosas repletas de cinzas suaves eletrificadas
e é tão belo teus olhos azuis mudando de cor nesses tempos de estações caóticas…
Teu corpo transpira como um grande jardim denso, perfumes de todas as cores
e temperaturas embriagantes exalam-se dessa tua entidade magestosa
como um eco profundo em minha alma…
A febre das dores de tudo aquilo que sepultaste em ti cessará com a chuva,
uma trégua para teu cansaço, lavando o crivo das lápides frias
o fim do luto de anos seguidos.
Jogue fora estes soníferos, estaremos a salvo depois de sãos
Acordemos, amor, espanta a sombra súbita do medo,
essa abstração perigosa da realidade em distorção
As partenogêneses da solidão no imaginário atropelam a compreensão
mas o  pesadelo é só um pesadelo, nítido, só o agora
aqui, entre nós, bem diante nossos olhos, a nossa continuação.

Carlos Lindenberg analisa o tratamento dado pela grande imprensa aos candidatos José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) na disputa pela Presidência da República publicada hoje no jornal mineiro Hoje em Dia:

Tem algo estranho nesta campanha

CARLOS LINDENBERG

Há alguma coisa estranha nesta fase da pré-campanha eleitoral. A candidata do PT, Dilma Rousseff, fala uma coisa, e o que vai ao ar é outra. E o que ela não falou vira verdade. Já com o candidato José Serra, do PSDB, acontece o contrário. Ele comete uma gafe, e o que prevalece é a versão maquiada dessa gafe, quando todos correm a acudi-lo. Faz algum tempo, Dilma veio a Belo Horizonte e disse aqui que não via nada de estranho se alguém votasse nela e no governador Antonio Anastasia, até porque ninguém tem o controle do voto do eleitor. Ficou a versão de que Dilma defendeu, em Belo Horizonte, o voto ‘Dilmasia’, uma heresia para os seus críticos. Mas Dilma não defendeu o voto ‘Dilmasia’, brincou com ele e até disse que, talvez, ficasse melhor o ‘Anastadilma’. Uma brincadeira que foi transformada em verdade – e olha que, ao lado dela, estavam dois pretendentes do PT ao Palácio da Liberdade, que, se fosse verdade, seriam os primeiros a reagir.

Pois bem. Neste final de semana passado, o ex-governador José Serra estava em Santa Catarina, numa festa religiosa, e, ao falar sobre o tabagismo, talvez estimulado pelo ambiente, disse que o “fumante é um homem sem Deus”. Ah, pra quê! Antes mesmo que a bobagem dita pelo presidenciável caísse no conhecimento geral, correram todos – os mesmos que crucificaram Dilma – a explicar que não foi bem assim, que o ex-governador foi mal- interpretado e até providenciaram para os arautos mais fiéis uma degravação do que Serra teria dito. Duas bobagens, a rigor, tanto a de Serra como a Dilma, se verdadeiras. Mas aí o que não foi dito ficou como dito, e o que teria sido dito passou como não dito.

Mas tem alguma coisa estranha nisso. No dia 1º de Maio, o presidente Lula compareceu à festa das centrais sindicais, em São Paulo, e lá fez discurso para dizer que o seu sucessor deverá fazer melhor do que ele. A ex-ministra Dilma Rousseff estava do seu lado. Lula não falou o nome dela. Mas foi o bastante para, no mesmo dia, anunciarem que a oposição iria entrar na Justiça contra o presidente Lula por propaganda fora de hora. De fato, a oposição entrou na Justiça, e não só pela suposta propaganda fora de hora, mas alegando também que os sindicatos fizeram uma festa com dinheiro público e que a festa se transformou em palanque eleitoral. Ocorre que, na tal festa religiosa em Santa Catarina, em Camboriú, mais precisamente, o poder público teria também financiado o encontro, porque prefeituras administradas pelo PSDB repassaram dinheiro para a festa que teve o candidato tucano como estrela principal. E ninguém havia piado até o início da noite de ontem, 48 horas depois do encontro, sobre a suposta ilegalidade do candidato tucano.

Mas por aí se vê que está havendo, na pré-corrida presidencial, “dois pesos e duas medidas” para os mesmos fatos. Tudo o que a candidata do PT fala ou faz é alvo de críticas por vezes exacerbadas. Quanto ao seu oponente, até parece que ele nem existe como tal, dada a lhaneza de tratamento que lhe dispensam os que cobrem a pré-campanha eleitoral. Agora mesmo, já começa a cristalizar na grande mídia a ideia de que tudo o que a candidata Dilma Rousseff faz ou fala é errado. Por esse ângulo, Dilma já deveria desistir da candidatura enquanto é tempo. Até sua visita ao túmulo de Tancredo, que ninguém da família reclamou, até porque o túmulo está disposto à visitação pública, virou pecado mortal. Já falam de suas roupas, da inconveniência das cores que usa, dos modelos inadequados que veste e por aí afora.

Já seu oponente, tão sério quanto ela, tão merecedor de respeito quanto, não teria cometido nenhum erro até agora. Serra, até então visto como um político de pouca habilidade, mudou. Pelo menos na visão dos que costumam escrever sobre ele, Serra agora é um virtuoso. Não erra nunca. Não fala nada extravagante. Pois, sim. Os de boa memória lembram que, no ano passado, foi Serra quem falou, como governador de São Paulo e com a autoridade de ex-ministro da Saúde, que a gripe suína passou para os humanos porque as pessoas chegavam perto dos porquinhos, portadores da gripe, eles espirravam e… pronto, contaminavam os que chegavam perto deles. Inacreditável? Sim, mas eu vi na internet, num blog insuspeito em se tratando de Serra. De forma que ainda há tempo para se tratar Dilma e Serra de forma igual. Até porque são ambos muito parecidos politicamente, por formação.

Memórias das oliveiras

abril 23, 2010

Um par flamejante de olhos procurando por um novo começo

que não volta nunca mais no tempo

tudo deve caminhar adiante, com o peito aberto por uma bala

fumegante

O corpo entrelaçado na bagunça dos lençóis amarrotados e cheirosos

dorme submerso em sonhos brancos

A temperatura é branda como a de brasas sob o manto terrestre

e nossos fantasmas flutuam calmos sob a superfície da água amniótica

No silêncio reconfortante da manhã paredes traspiram o cheiro humano das expectativas

aqui, teu corpo morno é uma vertigem viciante de hálito profundo

No fundo da garganta

o grito que se liberta de suas amarras vocálicas e atravessa dos teus lábios para os meus

assustadoramente cálido

tintas se misturam na superfície de uma tela gelatinosa,

mãos úmidas tocam meu rosto, fecham os meus olhos, molham meus cabelos

com sua febre intermitente

Delicadas pontas de dedos tateiam a escuridão alheia

em busca de si mesmo.

Trincheiras

abril 12, 2010

Onde estão as expressões dos olhos das janelas?

Acendendo na noite com alguns vultos dentro

me deixam nervosa, eu não aprendi a minha lição

não há como desfazer, tudo corre em círculos nessa ventura nauseante.

Traz a tua luz,  implodindo dentro da minha pele

quero me consumir em fogo

queimar a película delicada dos sonhos tristes

pilhas de rolos de velhos filmes tristes;

Tangerine, tangerine…

Meu reflexo precisa se projetar em ti

quero a fôrma angelical de tua pessoa

pessoa feita de tecidos suaves, de saliva doce,

de sentenças verdade; teu verbo preciso no preciso momento

de arrancar dentre as trincheiras

este soldado enlouquecido pela guerra.