Cala a boca, Narciso

maio 26, 2010

Este meu narciso masoquista esboça sua psicose
cuspindo tinta negra nos muros da cidade
é a carne que se come crua a dois ou a três, quem sabe.
Sua energia libidinal é seu delírio de grandeza
não percebes que teu vinho está estragado?
Colocas o amor em postas sobre lençóis usados,
mas você é quem está desfeito em pedaços.
Faz dias que não dormes, faz dias que não vives,
vitimado, você está correndo da dor
corra rápido para casa.
Flor apática e patética, teu mal gosto chega a ser uma arte,
teu cheiro dissipou-se, tua fera regurgitou a caça
e as hienas sorridentes tomaram conta de teu quintal, à espreita…
Falso inquisidor proxeneta e suas bruxas putas, lambidas
pela labareda das fogueiras de suas decadentes núpcias.
Gira a manivela do tempo e olha-se no espelho: ainda és jovem
suspira e te ata a gravata à garganta, sufoca o sorriso imbecilizado
sem a tônica máxima da palavra de Homem.
Perdido e sem paixão, meu caro Narciso,
engula essas lágrimas tolas, receba um beijo de boa noite
e cale-se diante a minha presença.
Abra seus braços e me faça cair novamente dentro  mim
o arco do seu abraço guarda uma paisagem imensa
em uma envergadura ampla que abriga uma passagem onírica
de um pólo a outro da consciência do meu amor.
O tempo nos acertará os relógios psíquicos numa sincronia
seguinte ao abismo de milhões de dias, em intervalos de luz na escuridão.
Eu  tento fazer com que você se sinta em casa, dentro do meu peito,
pra te deitar no sossego onde só se ouve a respiração.
Passam-se nuvens lacrimosas repletas de cinzas suaves eletrificadas
e é tão belo teus olhos azuis mudando de cor nesses tempos de estações caóticas…
Teu corpo transpira como um grande jardim denso, perfumes de todas as cores
e temperaturas embriagantes exalam-se dessa tua entidade magestosa
como um eco profundo em minha alma…
A febre das dores de tudo aquilo que sepultaste em ti cessará com a chuva,
uma trégua para teu cansaço, lavando o crivo das lápides frias
o fim do luto de anos seguidos.
Jogue fora estes soníferos, estaremos a salvo depois de sãos
Acordemos, amor, espanta a sombra súbita do medo,
essa abstração perigosa da realidade em distorção
As partenogêneses da solidão no imaginário atropelam a compreensão
mas o  pesadelo é só um pesadelo, nítido, só o agora
aqui, entre nós, bem diante nossos olhos, a nossa continuação.

O Pastor

maio 12, 2010

Eu sou um remédio amargo para seu paladar infantil e esteta
Eu sou um pai ausente e viciado que não bate na porta do seu quarto
antes de entrar
Sou um pastor de nuvens negras baças num céu de um domingo claro,
o choque de um atropelamento, o pânico de um alarme de incêndio.
Sou o incendiário cheirando a gasolina, o motivo tenso de um riso nervoso.
Eu sou suas odiadas muletas que entortam sua anatomia frágil, anti-anatômicas
o pudor em público, a frustração do seu sexo tenso, o cobrador na porta da frente?
Então é isso que sou para seus olhos doentes?
Os meus sentimentos mais profundos não mais se mostrarão
tudo ficará submerso dentro de uma parte esquecida de mim.
Grite, e eu não lhe escutarei.
Tudo vai perdendo o gosto na superfície áspera da língua cega
agora, só memória de vapores de cheiros etéreos no caminho.
Não há perdão, as linhas se entrecruzaram na escuridão particular
eu sigo em frente… Adiante, só o fim de tudo.

Irmão Lobo Menino

maio 6, 2010

Eis que ele vem como o sopro de uma prece longínqua com hálito vivente

fresca brisa entoada por mãos de maestro menino

Vem, que tarda esta primavera, as folhas já caem lentas pelo chão

Em vão tento me desapossar de tua lembrança, mas trago-te sempre comigo

Aos avessos, aperto o torniquete em meus pulsos, nas minhas veias te reteso

A tua inocência contorce meus nervos, irritante carnavália de borboletas

descendo ruas coloridas entre arlequins, bailarinas, vagabundos e flautistas

que se movem ao sabor da sua música e se embebedam em seu sorriso

enrolados em fitas, confetes e parafernálias retintas

Amigo, tire meus olhos das trevas! Pegue na minha mão, me leve para dançar teu cordel!

meu olhar parou em ti há tantos anos, escuro e perplexo ao se deparar

com o fogo azul que nasceu contigo e movimenta a infância de sua alegria

Eu sou o tipo de louco que alimenta o fogo que me consome

porque ainda hoje este fogo ilumina minhas trevas

Alimento o lobo gentil, porém, faminto, que me observa da tua janela

ele ainda não aprendeu a subir em árvores.

Escreve teu nome no meu nome, minha ópera, meu mor, minha lida

minha vida, meu bardo, meu irmão, meu menino.

GUILHOTINA

maio 6, 2010

Filhos BASTARDOS  dos juízes mais sádicos
jogam suas vidas fora em lamentos enjoativos
dopados de meras sentenças INÚTEIS de OUtrem
APODRECEM antes de AMAdurecer , cativos
tenho ânsias de suas miscelânias criATIVAS
das suas entreLINHAS de entrelinhas
sim ou NÃO já bastaria
mas nada basta aquele que nada resta
vejo partir TODOS OS DIAS esses vagões cheios de EUforia
mas se te incomodo,
mas se te engasga, VAI e vomita
esse tédio, essa dor APODRECIDA vinda do passado etéreo
ouSE, me cause, mas não me use para TORTURAR a si mesmo
traNsforme o TRANSTORNO numa tela cheia cheirando a absinto
eu te esqueço no meio do caminho assim como FIZeste com teu resPEITO
GUILHOTINA, eu quero dormir a noite inteira!

Carlos Lindenberg analisa o tratamento dado pela grande imprensa aos candidatos José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) na disputa pela Presidência da República publicada hoje no jornal mineiro Hoje em Dia:

Tem algo estranho nesta campanha

CARLOS LINDENBERG

Há alguma coisa estranha nesta fase da pré-campanha eleitoral. A candidata do PT, Dilma Rousseff, fala uma coisa, e o que vai ao ar é outra. E o que ela não falou vira verdade. Já com o candidato José Serra, do PSDB, acontece o contrário. Ele comete uma gafe, e o que prevalece é a versão maquiada dessa gafe, quando todos correm a acudi-lo. Faz algum tempo, Dilma veio a Belo Horizonte e disse aqui que não via nada de estranho se alguém votasse nela e no governador Antonio Anastasia, até porque ninguém tem o controle do voto do eleitor. Ficou a versão de que Dilma defendeu, em Belo Horizonte, o voto ‘Dilmasia’, uma heresia para os seus críticos. Mas Dilma não defendeu o voto ‘Dilmasia’, brincou com ele e até disse que, talvez, ficasse melhor o ‘Anastadilma’. Uma brincadeira que foi transformada em verdade – e olha que, ao lado dela, estavam dois pretendentes do PT ao Palácio da Liberdade, que, se fosse verdade, seriam os primeiros a reagir.

Pois bem. Neste final de semana passado, o ex-governador José Serra estava em Santa Catarina, numa festa religiosa, e, ao falar sobre o tabagismo, talvez estimulado pelo ambiente, disse que o “fumante é um homem sem Deus”. Ah, pra quê! Antes mesmo que a bobagem dita pelo presidenciável caísse no conhecimento geral, correram todos – os mesmos que crucificaram Dilma – a explicar que não foi bem assim, que o ex-governador foi mal- interpretado e até providenciaram para os arautos mais fiéis uma degravação do que Serra teria dito. Duas bobagens, a rigor, tanto a de Serra como a Dilma, se verdadeiras. Mas aí o que não foi dito ficou como dito, e o que teria sido dito passou como não dito.

Mas tem alguma coisa estranha nisso. No dia 1º de Maio, o presidente Lula compareceu à festa das centrais sindicais, em São Paulo, e lá fez discurso para dizer que o seu sucessor deverá fazer melhor do que ele. A ex-ministra Dilma Rousseff estava do seu lado. Lula não falou o nome dela. Mas foi o bastante para, no mesmo dia, anunciarem que a oposição iria entrar na Justiça contra o presidente Lula por propaganda fora de hora. De fato, a oposição entrou na Justiça, e não só pela suposta propaganda fora de hora, mas alegando também que os sindicatos fizeram uma festa com dinheiro público e que a festa se transformou em palanque eleitoral. Ocorre que, na tal festa religiosa em Santa Catarina, em Camboriú, mais precisamente, o poder público teria também financiado o encontro, porque prefeituras administradas pelo PSDB repassaram dinheiro para a festa que teve o candidato tucano como estrela principal. E ninguém havia piado até o início da noite de ontem, 48 horas depois do encontro, sobre a suposta ilegalidade do candidato tucano.

Mas por aí se vê que está havendo, na pré-corrida presidencial, “dois pesos e duas medidas” para os mesmos fatos. Tudo o que a candidata do PT fala ou faz é alvo de críticas por vezes exacerbadas. Quanto ao seu oponente, até parece que ele nem existe como tal, dada a lhaneza de tratamento que lhe dispensam os que cobrem a pré-campanha eleitoral. Agora mesmo, já começa a cristalizar na grande mídia a ideia de que tudo o que a candidata Dilma Rousseff faz ou fala é errado. Por esse ângulo, Dilma já deveria desistir da candidatura enquanto é tempo. Até sua visita ao túmulo de Tancredo, que ninguém da família reclamou, até porque o túmulo está disposto à visitação pública, virou pecado mortal. Já falam de suas roupas, da inconveniência das cores que usa, dos modelos inadequados que veste e por aí afora.

Já seu oponente, tão sério quanto ela, tão merecedor de respeito quanto, não teria cometido nenhum erro até agora. Serra, até então visto como um político de pouca habilidade, mudou. Pelo menos na visão dos que costumam escrever sobre ele, Serra agora é um virtuoso. Não erra nunca. Não fala nada extravagante. Pois, sim. Os de boa memória lembram que, no ano passado, foi Serra quem falou, como governador de São Paulo e com a autoridade de ex-ministro da Saúde, que a gripe suína passou para os humanos porque as pessoas chegavam perto dos porquinhos, portadores da gripe, eles espirravam e… pronto, contaminavam os que chegavam perto deles. Inacreditável? Sim, mas eu vi na internet, num blog insuspeito em se tratando de Serra. De forma que ainda há tempo para se tratar Dilma e Serra de forma igual. Até porque são ambos muito parecidos politicamente, por formação.

Nine Inch Nails versus Bauhaus – Hurt (Originally by Nine Inch Nails).