Em passos vagarosos na bruma azul escura teu corpo pálido se movimenta
pesadamente.
Uma caixa de correio vazia, janelas empoeiradas que se abrem ao sol
mas sem o velho sorriso das memórias desgastadas na espera.
É hora de um novo começo, de outro sorriso aberto.
Mãos desentrevando-se nos dentes do piano de cauda
fazem o som ecoar pela garganta dos corredores da casa.
As tuas íris azuis eclipsadas pelas pupilas negras dilatadas
mais parecem uma fina moldura de suas retinas claras
a tua alma delicada ainda por acordar.
Meu mergulho é profundo no seu nada, no seu tudo, em seu todo.
Entre as paredes do seu novo quarto, a eletricidade do meu cérebro
se vulgariza em lampejos tantos, diga
quantos mais eu aguentaria?
Espelhos imaginários refletem-se infinitamente
um posto em frente ao outro, imagens gêmeas invertidas.
Eu me reverto. Eu te trafego no romanceio da realidade abrupta.
Onde está o caminho? Amor, ele só existe enquanto está sendo feito.
O teu peito forte se sufoca em sua própria musculatura tensa
e tua respiração e palavras se engasgam.
É preciso deixar que o céu entre pela sua boca
e que o inferno saia quente por suas narinas.
Deixe que eu te leve, glorificados por cicatrizes da guerra que acabou
despido de teus segredos, agora eu te vejo.
vejo-nos frebris e cansados,
O consolo vem do teu corpo belo e convulso
exorcizamo-nos um no outro, os sinais vitais fervem novamente
arrebentando as artéria adormecidas.
Vê, o amor mais que merecido erguendo-se gigantesco
debaixo de uma tonelada de poeira.
É com o meu peso que eu te ergo, nada te sobrecarrego
e é com o meu gosto que eu te acordo, desfibrilando teu epicentro
Não temas as sombras que me acompanham
são somente meus sonhos e meus pesadelos,
são filhos de outra beleza
que não agradam a maioria dos olhos que os miram,
são lições aprendidas nas noites e nos dias
que vieram espantar seu inferno pra fora de tua mente.
Essa singular natureza, além do bem e do mal,
além da mentira do óbvio bonito e bem retinto, passado a frio
acorda-nos, acordes ,
acordemo-nos.
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Abra seus braços e me faça cair novamente dentro  mim
o arco do seu abraço guarda uma paisagem imensa
em uma envergadura ampla que abriga uma passagem onírica
de um pólo a outro da consciência do meu amor.
O tempo nos acertará os relógios psíquicos numa sincronia
seguinte ao abismo de milhões de dias, em intervalos de luz na escuridão.
Eu  tento fazer com que você se sinta em casa, dentro do meu peito,
pra te deitar no sossego onde só se ouve a respiração.
Passam-se nuvens lacrimosas repletas de cinzas suaves eletrificadas
e é tão belo teus olhos azuis mudando de cor nesses tempos de estações caóticas…
Teu corpo transpira como um grande jardim denso, perfumes de todas as cores
e temperaturas embriagantes exalam-se dessa tua entidade magestosa
como um eco profundo em minha alma…
A febre das dores de tudo aquilo que sepultaste em ti cessará com a chuva,
uma trégua para teu cansaço, lavando o crivo das lápides frias
o fim do luto de anos seguidos.
Jogue fora estes soníferos, estaremos a salvo depois de sãos
Acordemos, amor, espanta a sombra súbita do medo,
essa abstração perigosa da realidade em distorção
As partenogêneses da solidão no imaginário atropelam a compreensão
mas o  pesadelo é só um pesadelo, nítido, só o agora
aqui, entre nós, bem diante nossos olhos, a nossa continuação.