Em passos vagarosos na bruma azul escura teu corpo pálido se movimenta
pesadamente.
Uma caixa de correio vazia, janelas empoeiradas que se abrem ao sol
mas sem o velho sorriso das memórias desgastadas na espera.
É hora de um novo começo, de outro sorriso aberto.
Mãos desentrevando-se nos dentes do piano de cauda
fazem o som ecoar pela garganta dos corredores da casa.
As tuas íris azuis eclipsadas pelas pupilas negras dilatadas
mais parecem uma fina moldura de suas retinas claras
a tua alma delicada ainda por acordar.
Meu mergulho é profundo no seu nada, no seu tudo, em seu todo.
Entre as paredes do seu novo quarto, a eletricidade do meu cérebro
se vulgariza em lampejos tantos, diga
quantos mais eu aguentaria?
Espelhos imaginários refletem-se infinitamente
um posto em frente ao outro, imagens gêmeas invertidas.
Eu me reverto. Eu te trafego no romanceio da realidade abrupta.
Onde está o caminho? Amor, ele só existe enquanto está sendo feito.
O teu peito forte se sufoca em sua própria musculatura tensa
e tua respiração e palavras se engasgam.
É preciso deixar que o céu entre pela sua boca
e que o inferno saia quente por suas narinas.
Deixe que eu te leve, glorificados por cicatrizes da guerra que acabou
despido de teus segredos, agora eu te vejo.
vejo-nos frebris e cansados,
O consolo vem do teu corpo belo e convulso
exorcizamo-nos um no outro, os sinais vitais fervem novamente
arrebentando as artéria adormecidas.
Vê, o amor mais que merecido erguendo-se gigantesco
debaixo de uma tonelada de poeira.
É com o meu peso que eu te ergo, nada te sobrecarrego
e é com o meu gosto que eu te acordo, desfibrilando teu epicentro
Não temas as sombras que me acompanham
são somente meus sonhos e meus pesadelos,
são filhos de outra beleza
que não agradam a maioria dos olhos que os miram,
são lições aprendidas nas noites e nos dias
que vieram espantar seu inferno pra fora de tua mente.
Essa singular natureza, além do bem e do mal,
além da mentira do óbvio bonito e bem retinto, passado a frio
acorda-nos, acordes ,
acordemo-nos.
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Fantasma

abril 6, 2010

Mulher com os olhos carbonizados (óleo sobre tela - Alessandra oliveira)

Ele está morto, eu não estou morta

ele é só a poeira de um casaco roto
que me fala
fantasma pendurado no cabide pelos ombros
etérea alma de naftalina
esqueleto de soldado espetado na trincheira
queres que eu seja teu coveiro
que eu enterre teu caixão embaixo
da minha cama
que eu vele teu derradeiro sono sem ressonos
e nos meus sonhos me procurará com olhos cegos
e o tato roto no meu rosto
Pobre criança, não me perdoas?
Vá para os ninhos silenciosos na copa das árvores
na noite
e te abriga entre as asas dos pássaros
que a manhã já vem e que nada mais nos doa…